Ainda Escuto Álbuns #12: o íntimo e o popular de Samarone em “Toada Moderna”

Se você já me lê por aqui há um tempinho, deve saber que eu sou a pessoa que não consegue não se colocar naquilo que escreve. Também não consigo escrever sobre o que não me toca. Já tentei, tento sempre e não funciona: não sai como eu gosto.

Desta vez, isso bateu mais forte ainda, porque quando recebi Toada Moderna, do cantor e compositor maranhense Samarone, ainda no SoundCloud, senti uma responsabilidade enorme, principalmente porque, sinceramente, está muito bom.

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Antes de começar a escrever sobre esse trabalho, quero falar um pouco sobre o artista. Samarone iniciou seu trabalho como compositor aos 23 anos no conhecido Bumba Boi de Axixá, consagrando sua composição Canção de Axixá como a mais tocada da temporada.

Foi também Samarone que fez com que o violão fosse incorporado à orquestra do grupo, depois de quase 60 anos de existência. Ele também já tem parcerias com Josias Sobrinho, VINAA, Tiago Fernandes, Felipe Costa Cruz e Tiago Máci e em 2019 foi o ganhador do 1º Festival Ilha do Amor – que anunciamos em exclusividade por aqui.

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Além de ter sido o ganhador deste festival, Samarone é uma das poucas pessoas em São Luís que realmente fazem eu me sentir alguém capaz de escrever sobre música. Já nos batemos nos lugares por umas pouquíssimas vezes e ele sempre encontra uma forma de deixar isso claro pra mim. Eu fico constrangida e me esforço para aceitar o elogio.

Samarone foi o vencedor da primeira edição do Festival Ilha do Amor (Foto: Divulgação).

Não queria escrever de qualquer jeito sobre Toada Moderna. Na primeira vez que ouvi o disco, disse a ele que seu trabalho parecia um carinho: é como aquela canção de ninar querida. Lembro que meu pai, quando me colocava para dormir, cantava uma música de um Sabiá – sempre que canto essa música para os meus guris hoje, sou levada pra minha infância e ao colo do meu pai na rede.

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Toada Moderna tem uma coisa assim, sabia? Estou há semanas tentando encontrar palavras pra descrever como senti a música chegando pra mim.

Pra começar, todo o álbum me lembra muito o [ilustre cantor e compositor maranhense] Papete. Eu tenho uma péssima mania de sempre tentar explicar algo ou alguém usando outras referências, mas essa foi impossível de não perceber.

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Felizmente, conversando com Samarone sobre, ele mesmo falou que tinha um pezinho lá sim. Além do Papete, me remete ao Bruno Batista, um excelente cantor e compositor também maranhense já solto no Brasil. Fica aqui as dicas para vocês ouvirem também.

Em conversa com Samarone, ele me disse que o EP tem um “intimismo radiofônico”. Não pude discordar, nem havia muito a ser perguntado, basta ouvir. As músicas tratam de tesouros pessoais: Sol do Sertão, por exemplo, começa com a voz de um senhor (é Leonardo Bastião, do sertão do Pajeú, em Pernambuco), aquele sotaque nordestino delicioso recitando um cordel – poesia mais raiz impossível.

A melodia já transmite a sensação de saudade, uma saudade de algo que é tão particular e intrínseco ao eu lírico que talvez só mesmo a música é capaz de explicar.

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Para nós, maranhenses, ouvir os tambores dos sotaques da baixada é uma forma de fazer a gente se sentir em casa. Outro dia, um colega, que está residindo em Curitiba, me falou que não fica um dia sem ouvir o Boi de Maracanã: conforta. Talvez por isso, é quase impossível para os artistas independentes não colocarem pelo menos um pandeirão ou matraca em o que quer seja.

Somos transportados diretamente ao nosso tão amado (e agora mais desejado que nunca) São João do Maranhão. Particularmente, eu acho que nossos sotaques juninos são os nossos bens mais preciosos, e não vejo problema nenhum em encontrá-los em todos os espaços e trabalhos musicais desta cidade, mas quando são feitos com primazia como por Samarone no single que dá título ao EP, Toada Moderna, é mais digno ainda.

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O mesmo se repete em Margarida, quando os toques das caixas fazem a gente querer rebolar lembrando do nosso cacuriá – foi isso também que fez Papete uma das referências de Samarone.

O objetivo de Samarone não é “comercializar” Toada Moderna: ele mesmo sabe que não é um lançamento comercial. A produção foi longa (dois anos), cheias dos percalços já conhecidos pelos artistas independentes. A verdade é que o EP, mesmo que o pai quisesse, não é comercial, porque é pessoal. Pessoal tanto para Samarone, como para nós, maranhenses e ludovicenses que ouvimos: ouviremos, entenderemos e sentiremos o afago no peito como as pessoas que esperam o ano todo pra dançar, tocar e pagar promessas.

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O cantor e compositor Samarone (Foto: Divulgação).

A gente escuta e diz: “Eu sei o que isso aqui é” – sem esforço, ainda que alguns não saibam nomear exatamente. Os sotaques e inúmeros outros ritmos folclóricos do Maranhão compõem uma língua que quem quer aprende a reconhecer e amar, mas o que faz a pele arrepiar e dá o sentimento de pertencimento é uma linguagem a que nem todos têm acesso e que, em Toada Moderna, vem mais forte que nunca.

Aproveitem. Fiquem em casa, escutem e esperem nosso São João chegar.

* * *

Faixa a faixa, por Samarone, porque eu já falei demais:

1. Sol do Sertão: Com a pretensão de proporcionar uma imersão existencialista por meio de sintetizadores e instrumentos orgânicos de percussão, a música narra a simplicidade de uma personagem que, ao deixar o sertão pernambucano, adapta-se à capital maranhense. Entretanto, sempre que chega às festividades de São João, as saudades das particularidades juninas do sertão afloram nas simples palavras da personagem.

2. São José: O nome da música é uma homenagem. José de Ribamar Viana, conhecido como Papete, ou na canção, São José. Sua curta duração tem a intenção de soar uma pajelança com forte influência sonora do Clube da Esquina. Sua letra, muitas vezes de forma implícita, cita artistas maranhenses que influenciaram a concepção do EP.

Em suma, nas palavras do compositor, é um pedido de licença aos artistas que chegaram primeiro, abrindo caminhos e oportunidades.

3. Toada Moderna: No início da década de 30, o Graff Zeppelin LZ 127 passou por diversas cidades brasileiras. Era a primeira vez que um aeróstato daquela natureza pousava na América do Sul. Em São Luís, o dirigível alemão circulou pelo céu da ilha nas imediações do Centro Histórico e na Rua Grande.

Sob o ponto de vista de uma testemunha ocular, um pescador, Samarone apresenta, numa mistura de sotaques, a ressignificação desse olhar. A música apresenta versos que, além das ricas construções de cenários, vão do misticismo maranhense ao existencialismo do filósofo francês Jean-Paul Sartre. Com um refrão impactante, suas estruturas melódicas e poéticas contradizem quaisquer formas já vistas nas toadas de Bumba-meu-boi.

4. São Marçal: A penúltima música começa com um trecho incidental de Boi de Catirina, composição de Ronaldo Mota, do disco Bandeira de Aço de Papete. São Marçal faz menção a festividade ao santo que é celebrado todo dia 30 de junho no João Paulo, bairro de origem de Samarone.

Nessa toada, a exposição em metáforas de detalhes da infância do compositor e de ricas peculiaridades dessa data somam-se numa tradicional musicalidade, onde as linhas do contrabaixo de Adnon Soares a deixam mais vivais.

5. Margarida (feat. Milla Camões): Misturando elementos do cacuriá e divino com blocos tradicionais, Margarida é uma exaltação, com forte teor político, ao feminino em canto e força.

Com participação de Milla Camões, sua poética apresenta um canto libertário onde o eu lírico, Pai Francisco, conversa com uma margarida sobre protagonismos: Catirina, o gado que cansou de ser gado e o empoderamento de uma anciã. “É cheiro de flor e a sinhá mais velha já disse doutor: ninguém marca ela!”.

FICHA TÉCNICA Voz: Samarone | Violões e Percussão: Luciano Ricardo | Contrabaixo, Teclado e Sintetizadores: Adnon Soares | Sanfona: Rui Mário | Trompete: Mestre Bigorna | Flauta Transversal: Suellen Almeida | Banjo: Marley Oliveira | Coro: Marceleza e Allan Coelho. Gravado e mixado nos Estúdios Toca da Raposa (Luciano Ricardo) e CasaLoca (Adnon Soares), em São Luís – MA, entre os meses de abril de 2018 e janeiro de 2020. Produção Musical: Vinicius Medeiros | Arranjos: Samarone e Luciano Ricardo | Masterização: CasaLoca Estúdio | Fotografia: Dani Filgueiras | Projeto Gráfico: Matheus Alberto.

Steffi de Castro é psicóloga. Atua em São Luís como designer instrucional e escritora. É redatora no SobreOTatame, escreve e estuda sobre música, feminismo e comportamento. É estudante de tarô, dançarina amadora, podcaster, adora ASMR e a vida offline.

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