Precisamos falar sobre finitude

Ontem, quase no final do expediente recebi a notícia que um ator, o Domingos Montagner, havia mergulhado no rio São Francisco e estava desaparecido. Um pouco mais tarde, olhei a notícia que ele havia falecido. Não consegui elaborar aquele luto, não era meu. Mas imaginei a dor dos fãs, amigos e, principalmente, dos familiares e isso me tocou. O assunto ficou remoendo aqui dentro, e gente inquieta não consegue se desfazer de um pensamento constante até que ele transborde. Cá estou, convidando vocês para pensar um pouco sobre finitude.

Foi a angústia que a palavra “fim” causa que desencadeou esse texto. Deixamos o assunto em suspenso, pairando sobre a existência, como uma possibilidade distante, nunca eminente. Melhor assim, nada de antecipar sofrimentos e dores. Mas, veja só, faça esse exercício mental: imagine que, morbidamente, você saiba quando será seu último de vida. Quantas outras dores poderiam ser evitadas – ou não?

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E aí, o que você faria? (Foto: Rob Moses Photography)

Tudo bem, Joceline, onde tu queres chegar com esse papo bizarro? Simples, quando tu te tornas consciente de como a vida é efêmera, teus sentidos se expandem. Não sabemos elaborar o fim porque ele nos traz a inconsciente sensação de que teremos menos chances para erros e acertos, que nossas possibilidades estarão reduzidas e dessa forma deveremos pensá-las com maior clareza e menos impulsividade.

Essa possibilidade de finitude, assusta? Muito. Mas te traz um sexto sentido sobre o que manter ou não em tua vida, rotina, coração e afins. Te faz criterioso, porque o tempo é transitório e não infinito como pensamos. E então tu vais perceber que algumas guerras não são tuas, algumas pessoas não valem teu esforço, guardar magoas vai te adoecer. Mudança de contexto. É o que acontece quando essa efemeridade do tempo e da existência habitam o primeiro plano da consciência.

Para vocês, boa sorte nessa jornada de descobertas. Para o Domingos, espero que a vida lhe tenha sido leve.

E por fim, deixo novamente a questão: como você reagiria sabendo que hoje será o último dia de sua vida?

Joceline Conrado é psicóloga de orientação psicanalítica. Atua em São Luís como psicóloga clínica e no terceiro setor, na gestão e implementação de projetos sociais. É redatora e da área de planejamento no SobreOTatame. Se interessa por temas relacionados a gênero, psicanálise e questões raciais. Gateira e leitora compulsiva.

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