Que papo é esse de vencer na vida, Mané?

Vencer na vida? Que porra de vencer na vida!”. Vendo um vídeo ouvi um cara falar esta frase. Depois de um tempo me peguei pensando: “Que porra é essa de vencer na vida?”. Essa ideia de pódio e competição já revira a minha cabeça há um tempão e ouvir isso foi o start que eu precisava para escrever sobre essa parada aqui no SoT.

Não pise nos outros, nunca! (Foto - Coletivo Transverso)
Não pise nos outros, nunca! (Foto:  Coletivo Transverso)

Sempre busquei a tranquilidade. Hoje – com mais maturidade ou, quem sabe, apenas mais idade –, lembro dos meus planos de adolescente e fico feliz ao ver que, de fato, nunca almejei ser um herói. Um vencedor. Sempre fui firme à ideia de me posicionar estrategicamente e não atrapalhar essa corrida aloprada. Acho que tive preguiça e até medo de toda essa loucura. Esse lance de ter de vencer sempre me trouxe a ideia da necessidade de ter de derrotar alguém. Não quero adversários. Busco conexões com quem tenho afinidades e uma distância sadia com pessoas que, de alguma forma, não me fazem bem. Simples. Mas não faço da vida um jogo. Um combate. Não vivo de aplausos e já aprendi a caminhar debaixo de vaias.

Quando falo dessa pecha de vencer na vida, não quero descreditar conquistas, mas rechaçar quem busca reconhecimento pelo que tem, por aquilo que faz e não pelo que é de verdade. No fim de tudo o mais importante é o afeto. O melhor currículo é o caráter e as relações humanas – o resto é detalhe.

Distancia dos outros
Mantenha distância do que te faz mal (Foto:  Coletivo Transverso)

Não quero achar que o que conquisto retiro de alguém. Sentir esse gosto de superar o concorrente deixa o triunfo amargo – é mesquinho. Coisa de canalha. Chamam de piegas e démodé, mas ainda me sensibilizo com sorrisos. Não posso aceitar ser feliz, levar uma vida de boa, e achar que é normal o cara do meu lado se ferrar. Não se importar com o outro é um dos pilares da tensão social que o mundo vive.

Deixa o maluco ser feliz.

Estava parado no sinal e um artista, com uma perna de pau daquelas de circo, encostou na minha janela. Dei uma força pra ele, e, em menos de um minuto e meio, o cara deu um papo que me fez refletir.

Como fiz a preza – e ele abriu um sorrisão – me senti tranquilo pra puxar conversa. Perguntei: “E o trampo, meu brother? Tá no corre, hein…”. E ele: “Pow, meu chapa, estou sim. Mas vou vazar no fim do mês, vou pro Rio de Janeiro, quero rever a família”. Só completei: “Sim, família é sempre bom rever”. E o maluco falou: “Vou revê-los e sei que vou ser julgado por muitas pessoas que amo. Mas, quer saber a verdade, estou vivendo a minha vida de forma especial e única. Quando me perguntarem se eu perdi tempo, vou falar: Eu? Jamais. Nunca perdi tempo, estava aproveitado a minha vida e curtindo. Feliz. É assim que eu gosto de viver”.

Desapego
Tu não é o que tu tem, sacô? (Foto:  Coletivo Transverso)

O sinal abriu e eu saí sorrindo e pensando: “Esse aí não quer ser um vencedor”. Que massa! Acredito que é isto que eu quero também. O cara faz o que lhe dá prazer, sem medo do julgamento. Não vi naquele olhar a ambição pelo estrelato. Essa necessidade de aprovação que vejo por aí é bobagem. Pobreza de alma.

Chega desse papo chato. Esse discurso nunca me convenceu. Não quero vencer na vida. Que porra de vencer na vida, Mané!

Eu andei sem nada pelo Mundo

Eu dependi da classe mais pobre dos mais pobres

Que vencedor que nada!

Num tô aqui pra competir!

Quem é que disse que a vida é competição?

Aí compete marido com mulher, vizinho com vizinho, irmão com irmão… Colega com colega, pô!

E nessa sociedade competitiva, a minha derrota é a minha vitória

Jornalista, apaixonado pela família, futebol, rap e cinema. E, apesar de não acreditar em muitas pessoas, crê que o amor é capaz de transformar qualquer coisa.

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Jonas Sakamoto
8 anos atrás

Que texto, meu caro Eduardo. Que texto!

Essa ideia maluca que existem alguns melhores ou piores que os outros é surreal e transformar tudo em competição é um tanto doentia.

Trazendo pra essência do que a gente tenta fazer aqui no espaço. Talvez a nossa luta maior, seja manifestar alguma essência (por mais boba que seja) de valores que estimulem o diálogo, ao invés da discórdia, medo e aflição.

E aí bate a questão: ninguém é igual a ninguém ou todo mundo é igual a todo mundo?

Valeu!

Mariana Julio
Mariana Julio
8 anos atrás

É isso! Mais que emprego, status, é conseguir se dar bem com quem não gosta e melhor ainda com os chegados!

Jonas Sakamoto
8 anos atrás
Responder para  Mariana Julio

É aquela ideia: “Não preciso ser seu amigo, mas também não sou seu inimigo!”.