Violência obstétrica: a maternidade não deve começar assim!

(Foto: Divulgação).

Em nosso último artigo, falamos sobre puerpério e pedimos relatos de mulheres sobre suas experiências nesse momento tão delicado, especial e importante para mãe, bebê e família. Um relato, entretanto, nos chamou a atenção e decidimos que deveria ser um tema tratado à parte, ainda mais considerando as últimas ações governamentais que não são nada mais nada menos que um desserviço social. Vamos falar sobre violência obstétrica?

“Os primeiros 4 dias, eu passei no hospital e tive violência no parto. Os médicos me despediram na troca de plantão e eles falaram muita coisa que na hora do parto me atingiram, tipo “Ah, tu subiu agora, né? Por que não subiu antes?”. Eu falei estava sentindo falta de ar e falaram: “É, na hora de fazer tu não estava sentindo falta de ar…” E quando eu fui pra enfermaria, já tinha tido o Ravi. Teve uma enfermeira que pegou o plantão de manhã e ela foi muito cruel comigo. Eu não estava conseguindo me levantar, na hora que eu tentei, eu desmaiei por causa da anemia. Ela dizia que eu estava com frescura, ela me forçou a levantar e só quando desmaiei que ela viu que o caso era sério”.

Talita Liegyne, mãe do Ravi

O relato de Talita não é ficcional e tampouco único. Ainda hoje, várias mulheres passam por momentos de constrangimento e agressões físicas e psicológicas num dos momentos mais cruciais tanto para a mulher, que se tornará mãe, como para o bebê que está chegando: o parto. Assim como Talita, mulheres de todas as idades, status, profissões, raça e lugares passam por isso.

Há seis anos, Bianca Zorzam, Lígia Moreiras Sena, Ana Carolina Franzon, Kalu Brum e Armando Rapchan compilaram relatos de mulheres de todo o Brasil, feitos em suas próprias casas por elas mesmas, falando sobre suas experiências traumáticas. O resultado deste trabalho foi a produção do vídeo-documentário popular chamado “VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA – A voz das brasileiras”, disponível no Youtube:

Recentemente, o Ministério da Saúde vetou o uso do termo “violência obstétrica”, utilizado para se falar tanto de violências físicas (que incluem procedimentos desnecessários e sem aviso à parturiente e/ou à família) e psicológicas. Se existe um termo para algo, é porque isto existe. Ponto final. Ao nomearmos um fato, que pode ser corriqueiro ou não (e que no caso da violência obstétrica, é comum), iniciamos um movimento de compreender suas causas, consequências e buscamos modos de prevenção, educação, intervenção e, inclusive, punição aos que praticam deliberadamente tais atitudes.

Nos anos anteriores, o Ministério da Saúde posicionava-se claramente contra essas atitudes, utilizando o termo, conceituando-o, proibindo e reforçando o seu caráter negativo; o que vivemos agora é um retrocesso de consequências estratosféricas, tanto no dia a dia dos profissionais da saúde e de outros profissionais ligados à gestação como também ao movimentos sociais de mulheres que se mobilizam para evitar que isso continue acontecendo.

(Foto: Divulgação).

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou ao Ministério da Saúde que no lugar de proibir a utilização do termo de algo que existe, medidas mais eficientes e pontuais fossem tomadas para coibir tais práticas. Até agora, no entanto, não vemos modificações no que já foi dito.

Continuaremos utilizando o termo, até que outro, que explique melhor, surja; caso contrário, continuaremos nos posicionando contra práticas violentas, desnecessárias e graves continuem acontecendo a mães e aos seus familiares também.

A violência obstétrica existe, deve ser coibida, denunciada e não é retirando o termo de um conjunto de protocolos que fará com que ela deixe de existir.

Se você está se preparando para parir, já pariu ou conhece alguém que está nesse momento, divulgue informação, fale para esta mulher dos seus direitos, fortaleça-a, fique perto e empodere-a para que ela seja aquilo que é: a protagonista do seu processo de parto.

Iniciativa Elas SobreOTatame

Este texto faz parte do Elas SobreOTatame: uma iniciativa do SobreOTatame que aborda temas do universo feminino ao longo do ano, em textos, podcasts, encontros presenciais e convidados especiais. Tudo isso sob o comando da mulherada do site.

Neste segundo bloco, a temática é sobre Maternidade. A medida que os materiais forem saindo, iremos listá-los sempre ao fim dos textos para que você possa acompanhar. O primeiro foi:

Cada bloco dura três meses, com uma temática escolhida. O primeiro foi sobre Prazer Feminino e Autoconhecimento. Durante os meses de janeiro a março, vários materiais sobre esta temática foram publicados:

E tudo isso culminou em um encontro presencial, que você pode conferir no vídeo a seguir:



Steffi de Castro é psicóloga. Atua em São Luís como designer instrucional e escritora. É redatora no SobreOTatame, escreve e estuda sobre música, feminismo e comportamento. É estudante de tarô, dançarina amadora, podcaster, adora ASMR e a vida offline.

VOCÊ TAMBÉM PODE GOSTAR

Inscrever-se
Notificar de
guest


0 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários